Comunicação Não-Violenta (CNV)

Para além das ideias de certo e errado, existe um campo. E eu me encontrarei com você lá. (Rumi)

A convite das amigas de as sementeiras, resolvi escrever este texto mais como uma partilha da minha experiência com a Comunicação Não-Violenta (CNV) do que como um artigo falando da CNV em si. Até porque não saberia como fazer esta segunda opção, por não achar possível, ou por não fazer sentido para mim, falar sobre algo que não é exato e lógico, uma vez que cada um tem uma maneira de sentir, absorver e expressar o novo olhar que essa experiência traz.

Procuro ter cuidado com as palavras que uso para não me equivocar quanto ao sentido que busco, pois, uma coisa que aprendi com a CNV é que entre aquilo que queremos dizer, aquilo que realmente dizemos e o que o outro nos ouviu dizer, pode existir uma lacuna imensa.

A Comunicação Não-Violenta prima pela empatia e compaixão, parte-se do princípio de que tudo o que fazemos é para atender necessidades e que todo ser humano preza pelas mesmas necessidades básicas. Os sentimentos que afloram diante das situações do dia-a-dia estão conectados às nossas necessidades e ao fato delas estarem ou não sendo atendidas. E como agimos diante disso é muitas vezes estimulado por esses sentimentos, portanto, muitas vezes, tomamos decisões completamente equivocadas na tentativa de atender essas necessidades.

Para entender um pouco melhor o que seria Comunicação Não-Violenta e seus princípios, recomendo a leitura deste excelente artigo no blog Papo de Homem. Por ora, extraio este trecho: “A comunicação usual que estabelecemos é cheia de ruídos, vindos também de uma dificuldade pessoal em se abrir de forma vulnerável e em atingir a pessoa na necessidade delicada de ser apreciada.

Meu primeiro contato com a CNV foi num curso introdutório oferecido por Dominic Barter em 2014, em São Paulo. Não tinha clareza de absolutamente nada e pensava que iria aprender sobre mediação de conflito. Jamais imaginaria que iria aprender sobre eu mesma.De início essa vivência foi um apanhado de palavras soltas interessantes que, quando colocadas em conjunto, não me traziam muito sentido. Ainda assim, foi possível reconhecer que algo tinha mexido dentro de mim, e que não era pouca coisa. Ouvi sobre empatia, sobre presença, sobre o valor da escuta, de manifestar as verdades vivas dentro da gente, das emoções e, principalmente, das necessidades por trás das nossas ações. Senti que havia muita coisa incômoda dentro de mim ao ouvir aquelas palavras, mas ainda não conseguia entender o que todas juntas representavam.

Foi na minha segunda vivência que as coisas tomaram mais forma e eu pude me conectar mais profundamente. As palavras agora, juntas, me traziam mais sentido, e um pouco de clareza. Recorro agora às minhas anotações e encontro coisas valiosas, que compartilho:

  • Vivemos um momento em que as pessoas falam cada vez mais e ouvem cada vez menos. Uma escuta com presença tem uma qualidade imensurável, muitas vezes até muda a fala da outra pessoa, principalmente quando ela se ouve através de você. É um caminho para que ela possa se conectar com o que está realmente vivo nela.
  • Numa troca, numa partilha, numa discussão, enfatizar o que nos diferencia nos desconecta. Enfatizar as emoções e o que está na superfície, nos desconecta. É aqui que precisamos aprender que, ao ouvir alguém, é importante tentar escutar o que essa pessoa não está dizendo, e procurar enxergá-la por completo, para além de suas palavras.
  • Cuidar do outro sem descuidar da gente (e vice-versa) e do contexto em que estamos inseridos nos ajuda a construir a ponte que nos conecta. Precisamos sempre de presença, para estarmos conectados com nossas necessidades, mesmo quando cuidamos do outro. A atividade de cuidado é mútua. Então também é muito importante entender que, quando precisamos “mais” do outro para que nossa necessidade seja atendida, é muito importante que isto não diminua o cuidado do outro consigo mesmo.
  • Ter expectativas é uma forma de agendar nossas frustrações. Com a vivência/experiência, as expectativas se destroem no encontro com a realidade.
  • CNV não é um modelo pedagógico de fala, e sim o trabalho de como manifestar as verdades que mexem com as relações de maneira mais eficaz. Essas relações que tememos mexer.
  • Quando penso “eu não posso dizer isso”, na verdade eu escolho não dizer isso pois sua preferência é de não ter que lidar com a reação da pessoa à sua fala. Então é importante salientar a diferença entre aquilo que eu preciso e aquilo que eu prefiro.
  • E aí vem a pergunta: Como nós dois juntos podemos anunciar a verdade sem manipular esta verdade por temer a reação do outro?
  • Imaginar a resposta/estímulo de alguém à verdade que eu gostaria de ter dito é o que me mantêm na não-ação. Por isso em CNV fala-se bastante em APOIO. Apoio é aquilo que remove bloqueios para a ação em si e não algo que me conforta ao me manter na minha não-ação. Minha rede de apoio são as pessoas que fazem parte da minha vida e que eu posso recorrer quando preciso de escuta, de clareza e de apoio para uma ação.
  • Nunca sabemos como seremos recebidos quando agimos. Cada ser humano está em seu processo e possui suas ferramentas para lidar com estímulos à sua maneira. Não termos expectativas contribui para que não tenhamos frustração, como dito no início.
  • Não é você que me aborrece, irrita, magoa, por exemplo. Sua ação é apenas um estímulo para aquilo que está acontecendo comigo – “há uma linha tênue entre considerar que o que o outro faz é a causa do que eu sinto e considerar que o que o outro faz é estímulo para acessar o que eu sinto”, diz Dominic num dos cursos.
  • Estamos intolerantes no processo de mudança. Falamos em comunidades mas toleramos comunidades muito pouco. É só observarmos nosso cenário político atual. E quando nos deparamos com as injustiças, podemos nos sentir intolerantes à isso e sentir que é necessário ação, mas jamais devemos ser intolerantes ao sujeito que opera a injustiça. Este sujeito também busca, mesmo que de maneira equivocada, atender alguma necessidade viva dentro dele. Respeito é a operação de distinguir a ação/ato de alguém com este alguém em si – separar a pessoa do papel social que ela ocupa.
  • A CNV, embora compassiva, não quer dizer passiva. Portanto, como pode-se ver, ela está sempre convidando para a ação. A reflexão é em como agir – “esta ação cuida ou não da vida?” – isto é muito importante considerarmos.

 

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Arte de Louise Vendramini (clique na imagem para ampliar)

 

Essa experiência contribuiu para que eu pudesse identificar algumas coisas muito preciosas em mim. E uma das mais importantes pra mim foi entender da onde vinha minha  extrema dificuldade em falar, em recorrer a amigos quando algo incomodava dentro. Percebi que eu não conseguia identificar no meu meio a qualidade de escuta que eu buscava, todas as vezes em que eu tentava compartilhar algo, rapidamente me sentia desconectada. Eu queria (e quero) presença, queria (e quero) companhia, precisava ser enxergada por outros olhos, e não fazia a menor ideia disso. Quando não só entendi qual era a minha necessidade, mas tive ela satisfeita numa conversa, numa escuta empática, tudo ganhou um novo significado e eu passei a me perceber muito mais, e assim, perceber o outro.

Há muito o que se falar sobre as transformações que a busca por empatia e compaixão nas relações traz, mas cada um experiencia isso à sua maneira. Sinto mudança na qualidade das minhas relações agora. Procuro observar o que está vivo em mim e no outro, o que está além das palavras que estamos usando, o que está atrás das emoções, e procuro antes de tudo, investigar de onde isso vem, lembrando que o que o outro faz é somente um estímulo para eu acessar o que existe em mim. Acredito que melhorei minha qualidade de presença e escuta diante do outro, e nisso, ganhei um presente e tanto, tenho me colocado disponível para ouvir as pessoas, e tenho me encontrado nelas, em suas dores, seus anseios, seus conflitos.

Enxergar o outro é o melhor e mais nítido espelho que temos.

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