Documentário resgata a trajetória de mulheres agricultoras

 

Inspirado no livro Mulheres e Agroecologia: transformando o campo, as florestas e as pessoas, de Emma Siliprandi, o documentário é um mergulho nas trajetórias de vida de quatro agricultoras que participam ativamente dos movimentos agroecológicos no Brasil e que se tornaram referências e/ou lideranças sociais e políticas em seus territórios.

Livro que inspirou a produção do documentário
Livro de Emma Siliprandii, que é Engenheira Agrônoma, Mestre em Sociologia e Doutora em Desenvolvimento Sustentável (UnB)

Dirigido pelo cineasta e economista Beto Novaes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), As sementes  (2015, 30 min) mostra o quanto as práticas agroecológicas potencializam a participação das mulheres na unidade produtiva – desde o plantio até a comercialização – propondo relações de gênero igualitárias no campo. Um trabalho de coleta e manejo da natureza que contribui para a soberania alimentar, a preservação da biodiversidade e para o resgate das sementes crioulas!

A seguir, confira alguns fragmentos dos depoimentos das agricultoras:

Neneide LimaNeneide Lima

Assentamento Mulunguzinho, em Mossoró (RN)

O grupo [Mulheres Decididas a Vencer] decidiu trabalhar com a criação de abelhas, que era uma atividade que não necessitava de muita água, como acontecia com o cultivo de hortaliças, em pleno semiárido. (…) E hoje, a partir da Rede Xique Xique de Comercialização Solidária, elas vendem mel, além de doces e polpas de frutas, tanto para o consumidor direto, como para restaurantes e políticas públicas como PAA [Programa de Aquisição de Alimentos] e PNAE [Programa Nacional de Alimentação Escolar]. E hoje o nosso pilar sustentador dessa rede é a agroecologia, a economia solidária e o feminismo. A rede bebe muito dos frutos dos grupos de mulheres organizadas, e por isso que a questão do feminismo é permanente dentro da Rede Xique Xique.

Hoje, quem mais se identifica com a agroecologia são as mulheres, por mais que isso não saia nas pesquisas. Por que? Porquê é ao redor de casa. Ela que traz a fruta, traz a verdura; traz um dinheiro extra. É ela que faz toda essa história da diversidade, e por isso que ela encanta primeiro as mulheres.

Izanete CollaIzanete Colla

Comunidade São Francisco do Planalto, em Ibiaçá (RS)

Nós, do Movimento de Mulheres Camponesas, trabalhamos para que a mulher vá para o mundo público. Isso foi algo que foi tirado de nós há muito tempo. É histórico. Nós queremos dividir o mundo privado com os maridos, com os filhos, porque a casa, os filhos, enfim, tudo o que se faz, é responsabilidade de todos da família, e não só das mulheres.

Discutir a agroecologia vem ao encontro disso tudo, da gente refletir e pensar o que a gente pode fazer para que mudem essas relações, que é uma mudança cultural que tem que acontecer, porque a cultura é algo que se constrói. E foi construída toda uma cultura de exploração, de explorar as mulheres, de explorar a terra, de explorar a natureza. De tirar tudo, de sugar tudo, tudo tem que virar lucro. E as mulheres da mesma forma, porque a gente deu sustentação para esse modelo capitalista, machista, que está aí. A gente deu sustentação. A gente produziu os filhos para trabalhar, para ser mão de obra barata. A gente educou os filhos para isso. Eles nos educaram para que a gente educasse os filhos para obedecer e aceitar toda a dominação. Então nós acreditamos que só nós podemos mudar isso. Nós temos que mudar dentro de nós essa concepção de obediência que está cravada dentro de nós, que foi construída dentro de nós. Então nós temos que desconstruir toda essa cultura de dominação.

Efigênia Tereza MarcoEfigênia Tereza Marco (Fifi)

Acaiaca (MG)

Morar aqui na roça é muito bom, porque a gente tem essa liberdade de trabalhar. Muita gente, às vezes, prefere trabalhar “fichado” na cidade. Só que todos os dias tem que estar lá, como dizem, “bater cartão”. Aqui a gente consegue administrar o nosso tempo, com o tempo da natureza, com o tempo de Deus. (…) Sem contar que os outros trabalhos dão um certo estresse. E aqui, pelo contrário, é uma terapia.

Nós discutimos muito a questão da mulher, da agroecologia, gênero, divisão de tarefas, da renda. E quando a gente vai pro grupo, a gente se fortalece e começa a demandar para o município, para o estado, e a nível nacional.

A gente tem a nossa própria semente, a gente mesmo seleciona a nossa semente. Então não tem essa dependência do mercado, de ficar comprando sementes. E tem dado certo, temos conseguido multiplicar, o que pra nós é importante.

DeoMaria Andrelice Silva dos Santos (Deo)

Assentamento Dandara dos Palmares, Município de Camumu (BA) 

Quando a gente começou a trabalhar nesta atividade [sistema agroecológico], muita gente dizia até que a gente era louco e que ia morrer de fome. Mas, honestamente, eu posso dizer, com toda segurança, que a gente tira grande parte da nossa renda exatamente dessa parte das áreas diversificadas.

Quando a gente começou, as mulheres tinham uma situação. No dia que ela vinha pra roça, o marido dizia assim: ou você leva os filhos, ou você fica em casa. No início ela tinha que trazer os meninos pra roça. Hoje mudou porque elas conseguem ter um “ver” diferente. Elas conseguem ir para a feira para vender sua produção, conseguem botar seu dinheiro no bolso, e conseguem, elas mesmas, administrar o dinheiro que elas conseguiram. E ela está com sua autonomia dentro da família.


As sementes

  • Direção e roteiro: Beto Novaes
  • Argumento: Emma Siliprandi
  • Fotografia: Cleisson Vidal
  • Edição: Gislaine Lima
  • Trilha Sonora: Bernardo Gebara
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