Sementes crioulas, sementes de esperança

_DSC7158Dois estados, 4.150 quilômetros percorridos e mais de 50 espécies de sementes e mudas catalogadas.

Sim, todas crioulas, cultivadas por gerações e gerações de agricultores e agricultoras que, na contramão do agronegócio, lutam pela soberania dos povos. Sementes de urucum, de mamona, milho, feijão, quiabo, abóbora, cajuzinho do cerrado, barbatimão, cabaça, baru, jatobá, coco indaiá, sucupira, copaíba, entre diversas outras. Sementes nativas que, além de guardarem uma nova vida, guardam a história de uma imensa biodiversidade cultivada ao longo de milênios.

Baru e indaiá
Baru e coco indaiá, duas riquezas do Cerrado brasileiro

Em nossa última empreitada pelo Cerrado brasileiro, mais especificamente pelas terras de Minas Gerais e do Goiás, tivemos a graça de conhecer mais sítios e projetos de permacultura. Em todos eles, pudemos compartilhar a importância do resgate às sementes crioulas e suas redes de trocas. Prática essa milenar entre famílias do campo, a troca de sementes e mudas permitiu que a humanidade cultivasse e se alimentasse por mais de 10 mil anos. Era colher e guardar as melhores sementes para voltar a semear – uma condição fundamental no melhoramento das espécies ou variedades de plantas. Mas, nos últimos 60 anos, com o advento da chamada Revolução Verde – que de verde só tem o nome mesmo –, a produção de alimentos sofreu grandes transformações.

Baseada em um modelo industrial agroquímico, no uso indiscriminado de venenos e em vastos campos de monocultura, tal revolução negou essas práticas populares, classificando-as como atrasadas. Afinal, de que serviriam essas sementes crioulas ao mercado, uma vez que, por serem adaptadas às características do local de onde são nativas, são mais resistentes e dependem menos de insumos? Lucro certamente não gerariam. O resultado não poderia ter sido pior. Muitas variedades crioulas começaram a ser contaminadas, outras perderam seu vigor e, em algumas regiões, infelizmente muitas deixaram de existir. Uma rica biodiversidade que foi (e continua sendo) amplamente ameaçada por uma nova categoria de sementes, as chamadas sementes transgênicas ou geneticamente modificadas.

Transgênicos e a monocultura no prato

Cabaça e jatobá, coletados na região de São Gonçalo do Rio das Pedras (MG)

Para se entender o absurdo da questão, no código genético de uma variedade de milho, por exemplo, é inserido genes estranhos de qualquer outro ser vivo. Ou seja, transfere-se um ou mais genes responsáveis por determinada característica num organismo, para outro organismo ao qual se pretende incorporar esta característica. Pode-se, com essa tecnologia, inserir genes de porcos em seres humanos, de vírus ou bactérias em milho, e assim por diante. Patenteadas pelas empresas que as desenvolveram, quando o agricultor compra essas sementes, ele assina um contrato que o proíbe de replantá-las no ano seguinte (tradicional prática da agricultura de guardar sementes), de comercializá-las, trocá-las ou passá-las adiante. Ou seja, essas sementes transgênicas colocam a família camponesa em uma situação de total dependência de grandes corporações como Monsanto, Bunge, Cargill, Syngenta e Bayer.

E esses impactos na biodiversidade nos campos agrícolas são refletidos diretamente em nossos pratos. Só o trigo, o arroz, o milho e a soja representam 85% do consumo de grãos no mundo, segundo informações do Fundo das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Enquanto o agronegócio restringe nossa alimentação a poucas espécies que, por sinal, são aquelas que mais lucro dão ao mercado, os povos pré-históricos alimentavam-se de mais de 1500 espécies de plantas.

Feiras e redes de trocas

Uma esperança frente a esse avanço do agronegócio, as feiras e redes de trocas de sementes nativas vêm contribuindo com o fortalecimento da agricultura familiar e com a biodiversidade dos ecossistemas. Elas mostram que, patrimônio da humanidade, nossas sementes não podem ser privatizadas e nem tratadas como mercadoria. Mais que isso, nossas sementes não podem ser contaminadas com genes estranhos à espécie. São agricultores e agricultoras que, na luta pela soberania alimentar e pela autonomia das comunidades, se unem empenhados em resgatar, valorizar, produzir e colocar à disposição de outras famílias um acervo genético e cultural desenvolvido e/ou adaptado pela agricultura familiar ao longo das gerações.

Exemplo disso é o que faz a Rede de Sementes do Xingu , a Rede de Sementes do Cerrado, a Feira de Troca de Sementes dos Quilombos do Vale do Ribeira. Trabalho esse desenvolvido também pelo projeto itinerante Multiplica! – cultivando a sabedoria da terra. Em uma intensa caminhada por Minas Gerais e Goiás, Bruno Feu e Rodrigo Soares vem integrando comunidades tradicionais e ecovilas, promovendo o fortalecimento e a multiplicação das sementes crioulas, além da valorização da sabedoria ancestral. Levam consigo uma par de dezenas de especies nativas e nomeiam, em cada canto que passam, guardiões para a preservação e multiplicação das mesmas. Um trabalho de fazer os olhos brilharem de esperança.

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