Vila de Paranapiacaba

No último fim de semana tive a oportunidade de conhecer uma vila ferroviária bem próxima à capital paulista. Cercada de muito verde, e com um povo pra lá de hospitaleiro, Paranapiacaba é um desses lugares perfeitos para respirar ar puro e conhecer belas histórias. Tombada pelo Patrimônio Histórico Cultural, trata-se da única vila ferroviária do Brasil conservada desde sua fundação, que data da segunda metade do século XIX. Com um grupo de amigos de um curso de fotografia que fiz em São Paulo, nossa proposta ali era perceber e sentir um pouco dessa história marcada por trilhos e trens.

Distrito de Santo André (SP), Paranapiacaba está a menos de 70 km de São Paulo. Surgiu nos anos 1860 como centro de controle operacional e residência para os funcionários da companhia inglesa de trens São Paulo Railway, a qual transportava cargas e pessoas do interior paulista para o porto de Santos e vice-versa. E foi dessa proximidade de Santos que surgiu seu nome: Paranapiacaba, do tupi, significa “lugar de onde se vê o mar”, através da junção de paranã (mar), epiak (ver) e aba (lugar).

Caminhar pela vila é um pouco entrar nessa história, por meio de seus trilhos e trens, hoje já coloridos pelas diferentes ferrugens que revelam seu passado. É se deixar levar pelas cores e linhas de sua típica arquitetura, parte dela inglesa, chamada de Vila de Martin Smith, e parte conhecida como Vila Portuguesa, esta com influências lusas e inglesas. Ambas são interligadas através de uma ponte de ferro que passa por cima de todas as linhas da estação ferroviária.

Caminhar por Paranapiacaba é se deixar levar pelo ritmo das montanhas, do vento, da neblina que vai e vem no horizonte. É se permitir um dedo de prosa com cada morador que, da janela de suas casas, ficam a olhar o movimento dos vizinhos, dos turistas, das crianças brincando nas ruas, dos cachorros que estão por todas as partes. E foi assim que conheci dona Francisca de Araújo que, debruçada em sua varanda, aos 83 anos, sorriu para mim com um olhar singelo. Comentei com ela sobre a beleza de sua casa e tão logo ela me convidou para conhecer seu artesanato e seu maior tesouro: suas poesias. Foi como ver Cora Coralina em pessoa.

Com estrofes e versos, dona Francisca guarda em poemas a memória dos tempos áureos do vilarejo, quando moços bonitos caminhavam pela estação do trem. “Gente elegante, sabe?”, lembra a poetisa. E ali, visitando sua casa, dona Francisca me falou sobre a história da vila, do apogeu dos trilhos, e do início da decadência, na década de 1940, quando terminou o período de concessão da São Paulo Railway Co., e a vila passou a pertencer à União.

Cambuci, uma fruta na Mata Atlântica

E foi me perdendo pelo colorido da vila que também conheci dona Alzira Pellegrine. Em seu Espaço Gastronômico, na praça da matriz, dona Alzira vende sorvetes, tortas, geleias, entre outras iguarias, todas feitas com a fruta típica da vila e de toda Mata Atlântica, o cambuci. Confesso que antes de Paranapiacaba, Cambuci era pra mim apenas o nome de um bairro paulistano. Mas foi só chegar à vila inglesa que logo esse nome foi se tornando algo doce, com traços suaves de limão. Provei o sorvete de cambuci e recomendo a todos essa deliciosa experiência. Azedinho como o limão e de casca verde-amarela, o cambuci é parente da goiaba, da pitanga, da guariroba e da jabuticaba.

Com um sorriso nos lábios, dona Alzira me contou que não é o tipo de fruta que se coma in natura, já que é ácido, mas garantiu que seu sabor é incrível em diversas receitas, tanto doces como salgadas. Me falou, ainda, sobre a Rota Gastronômica do Cambuci, que este ano celebrou sua quinta edição, percorrendo cidades como São Paulo, Caraguatatuba, Paraibuna, Mogi das Cruzes, Salesópolis, Rio Grande da Serra, além da própria Paranapiacaba. E com brilho nos olhos, me mostrou mudas da árvore do cambuci, todas plantadas por um parente dela, o cunhado, se não me engano, e vendidas ali mesmo por R$ 5,00. Falou sobre a importância da Rota Gastronômica, que busca resgatar e fomentar o cultivo e o consumo da fruta, não só preservando uma espécie nativa da Mata Atlântica, como gerando renda para a comunidade local.

Horas depois, me despedi de Paranapiacaba com a certeza de um dia voltar para experimentar outras delícias feitas com cambuci, e para visitar as cachoeiras que estão ali pelas redondezas. Me despedi com a vontade de partilhar, naquela vila do século 19, milhares de outros sabores e belas histórias que ali habitam. Me despedi com o sentimento de gratidão às montanhas que rodeiam e protegem a vila, aos amigos do curso Rotas Poéticas da Fotografia de Viagem, e ao professor e hoje amigo, Marcelo Schellini. E para fechar, compartilho um dos poemas de dona Francisca de Araújo.

Aqui é a vila mágica
A vila aparece
E desaparece
Tem horas que você vê o morro
Tem dias que você não vê nada
Parece o grande caldeirão
Que você põe para esquentar
E a fumaça vem para a vila apagar
Tem bruxa no pedaço
Com sua vara de condão
E põe fogo no chão
A fumaça aparece
E a vila desaparece
Como passe de mágica
O morro a sumir
E a fumaça a perseguir
O dia não passa
Nem as horas
Só fica a fumaça
Na cidade mágica.

Como chegar?

  • Via trem regular CPTM + ônibus ou bike: mais econômica das vias, é possível ir até a estação Rio Grande da Serra pela CPTM (R$3,00/pessoa), e lá, ao lado da estação, pegar um ônibus até Paranapiacaba, pagando mais R$ 3,05 (ou fazendo a integração com Bilhete Único, com mais R$ 1,25). Para quem gosta de se aventurar de bike em meio a natureza, da estação Rio Grande da Serra dá pra ir pedalando até a vila de Paranapiacaba, aproveitando para descansar nas cachoeiras que ficam próximas à rodovia;
  • Via Expresso Turístico: os trens para Paranapiacaba partem no primeiro, terceiro e quarto domingo de cada mês. A saída é as 8h30 na Estação da Luz ou às 9h na Estação Prefeito Celso Daniel-Santo André (Linha 10-Turquesa, da CPTM). A viagem dura cerca de uma hora e meia, e o retorno ocorre às 16:30. O boleto de ida e volta, que custa R$ 34 por pessoa, deve ser comprados com antecedência, e oferecem descontos para um acompanhante ou mais.
  • Carro: há um estacionamento na chegada da vila.

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