Vale do Pati, a trilha da Chapada Diamantina

Quando saímos rumo a Bahia tínhamos um sonho: fazer alguma trilha pela Chapada Diamantina. Mas foi só começar a pesquisar que a realidade logo nos impôs um grande obstáculo: preços! As agências estavam cobrando algo em torno de mil reais por quatro ou cinco dias de trekking… Mas sementeira que é sementeira faz uma baita força para germinar e conta com os “acasos” da vida. E foi num desses que caiu sobre nós a possibilidade de fazer a trilha do Vale do Pati com o pessoal do projeto Vale do Grafite, e com a Diana, guia, amiga e parceira do projeto. Foi inacreditável!

Localizado bem no coração do Parque Nacional da Chapada Diamantina, entre os municípios e vilas de Andaraí, Mucugê, Guiné e Vale do Capão, por sua exuberante beleza, o Vale do Pati é um dos lugares mais visitados por quem gosta de fazer caminhadas em ambientes naturais. O seu acesso é feito apenas a pé ou montado em um animal, e são necessários no mínimo três dias para cruzar o extenso vale. Atualmente, vivem menos de 40 moradores fixos, mas o Vale do Pati viveu por décadas da agricultura do café, chegando a ter aproximadamente 2 mil moradores. Hoje, estes moradores vivem da hospedagem, transporte de carga e alimentação dos turistas que visitam o vale. O roteiro principal, que começa em Andaraí e termina no Vale do Capão, é feito em 5 dias. Como o pessoal do projeto só tinha quatro dias, optamos por um trajeto circular, a partir do Vale do Capão.

Seu João, um dos moradores do Vale

Vale do Capão: os preparativos

Quando descemos na praça do Vale eram 6 horas da manhã e a cidade estava quase deserta, mas o suficiente para olharmos pros lados e ficarmos fascinadas com aquele lugar. E o sonho só estava começando… O lugar é tão incrível que mereceu um post a parte (confira aqui), com informações de como chegar e onde se hospedar.

Mais tarde encontramos com o pessoal do Vale do Grafite, quando só então nos demos conta de que faríamos não só a melhor trilha da Chapada Diamantina, como uma das mais bonitas do mundo. Diana, nossa guia, nos aconselhou a não levar barraca, pois seria muito peso para carregar Chapada acima e abaixo, caminhando 8 horas por dia – sim, seriam nossas primeiras 8 horas diárias em terreno montanhoso. Ansiedade a mil! Nos informou também que teríamos casas de nativos para comer e dormir durante o trajeto, mas que levaríamos comida pra economizar. Cada um gastou no mercado R$ 35,00, e nossa guia sabia exatamente o que o grupo ia precisar tanto para fazer as refeições como para repor as energias durante a caminhada. Isso foi fundamental para vencer, bem, os 4 dias.

Na mochila, nada além de duas peças de roupa (uma delas para dormir), um chinelo, alguns remédios e itens de primeiros socorros, boné, capa de chuva, repelente, protetor solar, itens de higiene pessoal, as comidas rigorosamente divididas entre todos e a máquina fotográfica (que foi incapaz de registrar tudo o que vimos).

Pé na trilha! 1° dia: Vale do Capão até a Igrejinha

Como o primeiro dia do trekking já prometia 8 horas de caminhada, para chegar ao inicio da trilha pegamos uma 4 x 4 que custou R$ 10,00 por pessoa. Isso foi essencial, pois, da praça principal da vila até lá, seriam mais 2 horas de caminhada pela Vila do Bomba por uma estrada de terra… A trilha começou com uma subida leve de aproximadamente 2 horas até o Córrego das Galinhas. A nossa esquerda e a frente já avistávamos o começo dos impressionantes paredões de pedra. Fizemos uma rápida parada no córrego para abastecer as garrafas de água, comer algo pra repor energia e ir ao “banheiro”. Não precisou de muitas horas para percebermos que a água da Chapada é incrivelmente pura e límpida. Uma água “benta” que nutre a alma durante cada passo dado. Depois de 15 minutos, seguimos rumo ao Gerais do Vieira. Foram mais ou menos 4 horas andando num retão onde o visual era uma pintura divina. Céu azul, campo aberto, vegetação rasteira, solo rachado, montanhas nascendo do solo por todos os lados para onde olhávamos e vento soprando forte. Uma meditação em movimento. Paramos para comer num pequeno refúgio feito de troncos e sapê, que protege os aventureiros do vento e da chuva, e nos banhar na Cachoeira dos Cristais.

Energia reposta, seguimos com o mesmo visual, apenas a vegetação foi “subindo”, o solo ficou negro, o sol estava escaldante e uma nascente cortou nosso caminho para aliviar o calor, a sede e a alma. Enquanto nos aproximávamos da ponta do Gerais do Rio Preto brincávamos de desenhar com as nuvens sobre o Morro Branco. A reta acabou e sentamos para apreciar aquela imensidão de montanhas, serras e vales. Estávamos num lugar bem alto e era de arrepiar imaginar que aquilo ali embaixo um dia foi mar. Começamos então a descer por uma “pirambeira”, como dizem os nativos, o Quebra Bunda, e antes de chegar à igrejinha ainda passamos por uma linda mata fechada. O clima tinha mudado bruscamente de seco para úmido e isso alterou completamente a vegetação, tanto que a flor Quaresma coloriu de roxo a paisagem.

A igrejinha é um oásis humano no meio daquela natureza sem fim. Com uma igreja, quatro casas e um morador, seu João (que adora papear noite adentro), nos acolheu muito bem quando chegamos por volta das 18 horas mortas de cansaço. A infraestrutura é super simples e conta com banheiros e quartos coletivos, uma cozinha comunitária e a vendinha. A energia é gerada com placas solares e usada apenas para o necessário. Já o banheiro tem, por pouco tempo, água quente. A diária ali custa R$ 25,00 por pessoa e não há refeições oferecidas a parte, portanto é necessário levar ou comprar comida ali mesmo para fazer, com um adicional de R$ 8 por grupo caso precise utilizar o fogão. Famintos, comemos uma comida deliciosa preparada pela guia, conversamos com outros grupos que também faziam a trilha pelo Vale e fomos cedo pra cama, pois a aventura estava só no começo…

Momentos de descanso na casa de seu João

2° dia – Igrejinha até a casa de Seu Wilson e dona Maria

Antes de seguir para o nosso segundo destino, deixamos nossas mochilas na Igrejinha e fomos conhecer uma das maiores atrações da Chapada Diamantina, o Cachoeirão. A caminhada foi tranquila, quase toda em terreno plano, e cruzando vez ou outra com pequenos córregos que desembocam em cachoeiras. Passamos por uma pequena mata que mais parecia um mangue, pois as raízes das árvores estavam expostas e, combinadas com as cores dos musgos, nos fazia sentir num reino encantado. Seguimos andando numa reta, quando a guia parou e disse: “pessoal, de agora em diante, tomem muito cuidado por onde pisam, pois estamos chegando no Cachoeirão”. Não fazia o menor sentido, pois não víamos nem sinal de cachoeira. Demos então mais alguns passos e eis que um vale incrível foi surgindo sob nossos pés, como se o chão se abrisse para a cachoeira nascer. A emoção de chegar por cima numa cachoeira daquele porte e altura (são cerca de 200 metros de queda) é indescritível, algo que só pode ser sentido. Ficamos mais de uma hora ali em estado de graça, apenas contemplando a criação e conversando com a mãe-Terra… Depois desse choque energético, voltamos para a igrejinha para pegar nossas coisas e seguir viagem. O sol estava muito forte sobre nossas cabeças e isso nos deixou exaustos.

Vale do Cachoeirão

O trajeto da igrejinha até a casa de seu Wilson foi o mais difícil e de maior aventura de toda a trilha. Já eram 16 horas quando saímos e precisávamos chegar antes de escurecer, por isso, a guia escolheu um caminho mais curto… literalmente pelas cachoeiras. Muita descida, pedras úmidas e soltas, árvores para se segurar e pular, pequenas escaladas. Seguimos pelas águas do Rio Funis, passando por algumas cachoeiras. Algumas vezes adentramos na mata alta e era impossível prestar atenção naquela diversidade verde à nossa frente e, ao mesmo tempo, nas pedras no chão. Nos perdíamos em sensações e informações visuais.

Casa de seu Wilson e dona Maria

Se antes vimos a Chapada por cima, agora estávamos lá embaixo, com os imensos Gerais do Vieira nos abraçando. Nos distanciamos das cachoeiras e seguimos uma estrada aberta até a casa de seu Wilson. Quando chegamos ali, a noite já estava caindo. E como é inesquecível o céu estrelado do Pati! A casa de seu Wilson é ainda mais simples e menor que a igrejinha. Conta com apenas a casa da família de seu Wilson e uma outra anexa, com quartos compartilhados, 2 banheiros e uma cozinha bem simples. A diária só pra dormir custa R$ 35,00 por pessoa, mas o que a maioria faz é pagar pensão completa com alojamento, jantar e café da manhã que sai R$ 75,00 por pessoa. Além disso, a comida de dona Maria, esposa de seu Wilson, é a mais famosa de todo Vale do Pati.

3°dia: Casa de seu Wilson e dona Maria até a Prefeitura

Quem faz trilha sabe que sinônimo de descer muito é subir muito e foi assim que começamos nosso terceiro dia, subindo absurdamente muito. O objetivo era chegar em outra grande atração da Chapada, a gruta do Morro do Castelo. Quando chegamos ali não acreditamos no que estávamos vendo. A entrada dela, por si só, nos levou imediatamente a uma cena de filme: era enorme e não sabíamos se olhávamos curiosos para dentro, onde estava tudo escuro, ou para o mar verde com suas elevações rochosas do lado de fora. Depois de muito contemplar, como Júlio Verne, adentramos ao desconhecido mal enxergando um ao outro e com uma pequena lanterna guiando a todos. Foram minutos do tempo daqui, mas uma eternidade na ampulheta da imaginação até alcançarmos novamente a luz. E foi realmente como transpassar um portal e encontrar um vale escondido da humanidade, ou melhor dizendo, protegido da humanidade. As formas, cores, texturas, cheiro, a vida que pulsava ali mexeu demais com cada um de nós. Certamente estávamos tomados de perplexidade e sensações distintas, cada um transportado ao mundo de sua quimera. Mas ainda tinha um… depois. E foi quando presenciamos uma natureza descomunal. Estávamos no coração da Chapada Diamantina, com o visual mais incrível do Pati. Éramos grãos numa imensa sementeira e ficamos ali sentindo o vento, escutando nossa voz interior e contemplando com o coração.

Vista do Morro do Castelo

Mas, apesar da vontade de viver ali, seguimos silenciosamente a trilha, tranquila e encantadora, até a Prefeitura, sentindo algo germinar dentro de nós. Pra fechar nosso penúltimo dia imersos no Pati, depois de deixar nossas coisas na última morada, fomos nos banhar no Poço da Árvore, bela piscina natural e cachoeira no meio da mata. Ao regressar, ficamos fascinados com o céu mais lindo que já vi na vida sobre as falésias do morro dos Dedos . Ele e o Morro do Castelo se erguiam sobre as nossas cabeças.

Morro dos Dedos

Dos três refúgios, a Prefeitura é o que está um pouco mais completo. Tem quartos menores e duplos, banheiros com água quente, vendinha e uma cozinha bem equipada. A diária custa R$ 25,00 e o jantar R$ 35,00, por pessoa. Antes de cairmos na cama, sentamos na frente da casa para tomar uma cachaça com canela e ouvir deliciosas histórias sobre os moradores do Vale.

4° dia: Prefeitura até o Vale do Capão

No último dia daquele sonho, levantamos as 5 horas da manhã para conseguir chegar ao Vale do Capão antes de anoitecer, passando pelo Vale do Calixto. Olhando pra trás, me lembrei da canção: “dos cegos do Castelo me despeço e vou a pé até encontrar um caminho, o lugar pro que eu sou”. Então, seguimos, e não é que lavamos a alma? Antes de voltar pra casa fomos abençoados com a chuva. Sim, abençoados porque a chuva ali é um momento único em que as pessoas pulam, vibram e tiram foto. É lindo ver todos tomados de alegria olhando pro céu e agradecendo a dádiva da chuva. Seguimos caminhando por 8 horas com subidas muito pesadas, mas fomos agraciados com cachoeiras fantásticas, como a tão falada Cachoeira do Funil. Nessa altura, a chuva já havia parado e nós não perdemos a chance de nos jogarmos em suas águas.

Depois do banho, seguimos para o Calixto e quando o vimos, de dentro, não nos arrependemos de nenhum passo dado a mais. Estar ali é como estar em Eywa, a terra de Avatar. Não há sequer um mito, lenda ou estória de conto de fadas que você não veja ali. Para mim, foi um contato de pura gratidão para com a Mãe Terra, o Pai Céu, o Avô Sol, a Avó Lua, as Quatro Direções, o Povo-em-Pé (árvores), o Povo de Pedra, os seres de asas, os seres de barbatanas, os quatro patas (animais), os rastejantes (insetos), a Grande Nação das Estrelas, os Irmãos e Irmãs do Céu, os povos subterrâneos, os seres do Trovão, os Quatro Espíritos Principais (Ar, Terra, Água e Fogo) e todos os seres de Duas Pernas da família humana…

Entre raízes

Arrepiados, saímos do Calixto e, mais uma vez, caminhamos sobre os Gerais. Hora de digerir tudo o que os nossos sentidos presenciaram nessa imersão. Horas de caminhada depois, estávamos bem cansados e paramos na toca do Gaúcho para respirar e comer alguma coisa. Essa toca foi, por muitos anos, a morada de um desprendido gaúcho que vivia ali como no tempo dos homens das cavernas.

Quando só faltava a descida rumo ao Capão, resolvemos ver e nos jogar na Cachoeira da Purificação, então desviamos a esquerda e, depois de uma difícil descida por trilha pouco batida, chegamos! Nos purificamos nas últimas águas da Chapada e descemos, pois o Capão nos esperava. A trilha do Vale do Pati tinha chegado ao fim, mas nossos olhos e sentidos nunca mais serão os mesmos depois dessa profusão de paisagens, sensações e experiências. Então nos despedimos com gratidão ao Grande Mistério e aos amigos que compartilharam essa incrível caminhada (Alex, Luana, Diana, Maíra e Eder).

Cachoeira da Purificação

Contas da trilha:

Quanto saiu a trilha indo por conta.
Hospedagem: R$ 85,00
Transporte (desde Salvador): R$ 150,00
Refeições: R$ 125,00
Guia: R$ 100,00 (por pessoa)
Total: R$ 460,00 (por pessoa)

Dicas e informações importantes:

  1. Sim, guia é fundamental. Pelo menos se você não é um expert em trilhas e estudou muito bem todo trajeto que vai percorrer.
  2. Em geral, um guia cobra R$ 150,00 por dia para fazer o Pati, dependendo do número  de pessoas. Logo, vale a pena juntar uma turma e contratar diretamente um guia sem agência de turismo. Aqui, dois contados de guias de confiança: Diana e Dmitri.
  3. No Vale do Capão e por todo Vale do Pati não há sinal de celular, portanto, deixe amigos ou familiares avisados antes de ir pra lá.
  4. Os bancos ou caixas eletrônicos mais próximos ficam na cidade de Palmeiras, logo, leve a quantia que vai precisar em espécie.
  5. O sol durante a trilha é muito forte e pode deixar queimaduras horríveis, por isso,  além do protetor solar, é fundamental levar bonés, chapéus ou lenços.

E você, já fez alguma trilha ou caminho desses que nos fazem refletir a cada passo dado? Tem planos de fazer um dia? Compartilhe com a gente!

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