O caminho que quero dividir: Santiago de Compostela

É quase inexplicável o que é o Caminho de Santiago de Compostela.

A primeira palavra que vou usar é desprendimento. No Caminho, a mochila é a sua casa. Então, tem gente que leva livros, várias trocas de roupas, de sapatos, o que quer que seja. Tem gente que até computador leva. Mas essa casa você carrega nas costas… e aja costas para carregar o fútil, o desnecessário, o que você nem usar vai. E é gostoso ver, ao longo da caminhada, as pessoas se dando conta disso e diminuindo suas “casas” até ficarem do tamanho real de suas necessidades. Muitos abandonam coisas, outros despacham para Santiago ou para suas “casas de tijolo”. Nos damos conta de que precisamos de muito pouco para ser felizes. Para nos realizar. Para fazer amigos. Para ajudar o outro. Para superar cerca de 800 km andando.

Será que não acumulamos coisas desnecessárias em nossas casas? E no que essas coisas nos ajudam a viver mais e melhor? Será que não carregamos nossa casa nas costas?

A próxima palavra é tempo… e essa eu adoro! O relógio, as horas como as conhecemos, não têm o menor sentido no Caminho. Imagine que você tenha que acordar e sair para andar… e que só irá parar quando seu corpo não mais aguentar… e que no outro dia será igual, e no outro também… Não existe mais tempo! Dormíamos mais ou menos as 21h (com o sol europeu em nossas cabeças) e acordávamos as 5h da manhã. Era o corpo que nos pedia isso, e não mais o relógio. Imagine todas as pessoas fazendo isso juntas! Andávamos 6, 7, ou até 8 horas por dia. E as horas viravam dias, e os dias viravam meses e os 28 dias de Caminho viraram uma vida. A cada uma hora mais ou menos você tem uma nova paisagem, um novo acontecimento, uma pessoa que conhece, uma nova história…

Será que é só o caminhar? Será que somos escravos das horas/dias/calendários/feriados?

SuperaçãoA terceira palavra que quero usar é superação. Meu Deus, como se sente dor. Foram bolhas nos pés, inflamação nos tornozelos, uma dor absurda num osso (que eu nem sabia que existia) no pé, diarreia, vômitos… Mas não imagine isso como um sacrifício. Não é! O Caminho não dá esse peso. São coisas que acontecem para que você desenvolva a calma, a paciência e a perseverança. Coisas que fui me dar conta no segundo dia de caminhada, quando conheci Maria Antonia, uma senhora de 68 anos que não era acostumada a andar antes e que me disse: “eu não tenho mais pressa na vida e não tenho data para voltar, assim que vou no meu ritmo e, seja quando for, eu vou chegar”. Foi nesse dia que comecei a buscar meu ritmo. Pra vida? Será? No Caminho não importa se você é preparado fisicamente ou não. Vi gente sem preparo algum chegar a Santiago de Compostela sem uma bolha sequer no pé (minha amiga Maria Antonia foi uma delas) e vi gente com muito preparo físico e pouca idade cair pelo Caminho com um ligamento rompido ou joelho estourado.

Será que o segredo era o ritmo? A calma? A paciência?

A próxima palavra é partilha. Nossos pontos de descanso eram os albergues, onde jogávamos nosso corpo, deixávamos a água cair para limpar todo cansaço, onde nos alimentávamos em refeições comunitárias e onde ouvíamos histórias maravilhosas. Foram paellas, macarrão a carbonara, saladas, lanches, etc. Uma delícia. Mesas enormes, gente de todos os cantos do mundo, aplausos para os cozinheiros, muito vinho e muita interação. E na hora de dormir? O quarto muitas vezes era para 90 pessoas (em beliches). Imagine 90 pessoas completamente distintas (em todos os aspectos) dormindo juntas? Eram roncos, chulés, tosse, gente se mexendo a noite toda. Uns dormiam mais cedo, outros mais tarde. Um absurdo para muita gente imaginar… e um verdadeiro aprendizado para aqueles que estão fazendo o Caminho. O respeito, o desapego e a tolerância são coisas que a gente aprende a desenvolver sem se dar conta. Pepe, um amigo espanhol de 66 anos, quando chegou a Santiago de Compostela, encontrou sua esposa e se hospedou em um hotel com ela. À tarde nos encontramos e perguntamos como ele estava. E assim ele disse: “tenho uma cama de casal enorme para dormir, uma ducha incrível para tomar banho, uma TV com 50 canais e, depois de usar tudo isso, pensei que não queria nada disso. Que nada disso me preenche de verdade. Que quero os meus amigos juntos. Que prefiro estar no albergue com vocês”.

Quantas vezes tudo o que temos não nos preenche? E sabemos exatamente o porquê, assim como Pepe? Por que comemos sempre tão solitários? Por que sobra ou falta tanta comida em nossas mesas?

Almoço coletivo

Outra partilha. Dizer que algo te falta no Caminho é sinônimo de ter o que precisa. Ao dizer “tenho fome”, alguém tira uma comida da mochila e te dá. “Não tenho boné para me proteger do sol”, alguém tira o boné da cabeça e te dá. Menos Maria Antonia, minha amiga. Pois bem, num dia duro de caminhada, Maria Antonia esqueceu o boné dela no albergue e seguiu o Caminho debaixo do sol escaldante. Ao comentar comigo que havia perdido o boné, eu olhei para aquela senhora de 68 anos, com marcas suficientes da sua idade no rosto e, sem pensar, lhe ofereci meu boné. Muito séria, ela me olhou e disse: “No se desnuda un santo para vestir otro”. Fiquei perplexa com essa frase na cabeça por uma boa parte do Caminho.

Quantos santos eu já despi? E quantos eu vesti?

Dona Maria Antonia e seus 68 anos

Idade. No Caminho não existe idade. O mais novo que conheci tinha 17 anos e carregava na mochila um notebook de 17 polegadas e um terno. Não sabia direito o porquê estava caminhando e, no seu décimo dia, voltou pra casa. Já a mais velha tinha 81 anos (Dona Maria del Pino!). Era a quinta vez que fazia o Caminho. Estava com sua filha e fez questão de mostrar a identidade para que eu acreditasse nela. Sua filha contou que, para comemorar os 80 anos, sua mãe subiu um vulcão em Tenerife. E desabafou que os filhos têm que se revezar para acompanhá-la… e que aja folego. Quando eu perguntei à Dona Maria del Pino qual o segredo para ter tanta disposição assim nessa idade, ela sem pensar me respondeu: “Nunca parar de andar”.

Será que paramos de andar muito cedo? Será que nos acostumamos com o sofá, com o carro…? Diante dessas coisas, percebi que a questão idade não tem o menor peso no Caminho. E na vida? Tem ou somos nós quem colocamos o peso?

Uma outra palavra é: idioma. Tem gente do mundo inteiro. Europeus (super preparados fisicamente), brasileiros (aos montes, alguns tomando cerveja e fazendo piadas pelo Caminho rs), coreanos (caminhando de chinelo), japoneses (levando em suas mochilas até banquinhos pra sentar), americanos (uns comendo batatas fritas e tomando coca-cola rs), indianos (carregando instrumentos musicais para fazer seus mantras tibetanos), toda sorte de gente… Pode ser uma verdadeira escola de idiomas. Tem gente que caminha conversando em vários idiomas com um monte de gente. Mas o Caminho tem a sua língua oficial… E essa língua muitas vezes e falada só no olhar. Num esticar de mão pra quem está no chão, no oferecer de uma agulha com linha para furar a bolha enorme que está no seu pé, no sabão que te dão pra lavar a roupa suja, no sorriso que se abre quando você consegue chegar onde o outro chegou e só vocês sabem o quanto foi difícil chegar ali… No Caminho, não faz falta idioma algum.

Por que então a comunicação entre o mundo é tão difícil? Por que as nações não conseguem se entender? Por que muitas vezes não “conversamos” com quem é diferente de nós?

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E por falar em olhar e sorriso, a próxima palavra é: torcida. No Caminho, você não torce por você. É claro que você deseja e luta para chegar no seu destino, mas de nada adianta chegar sozinho… A gente se pega torcendo por cada rosto que viu durante a caminhada: o senhor que mancava, a menina com bolhas nos pés, o rapaz que está com o joelho inflamado… todos! A gente quer que todos também consigam aquilo que conseguimos. E como é maravilhoso chegar no destino e ser recebido com aplausos e sorrisos por aqueles que já chegaram. Mais gostoso ainda é ficar aguardando pra aplaudir e sorrir aos que ainda estão por chegar. Você não quer chegar sozinho, todos devem chegar.

Então por que somos tão individualistas e queremos ser melhores que os outros na vida?

Solidariedade. Numa das etapas mais duras do Caminho (um sol de matar, uma estrada sem fim, nenhuma árvore, nenhuma sombra, um deserto sem fim), vi uma das cenas mais bonitas do Caminho… Tinham dois amigos espanhóis e quatro italianas que sempre andavam juntos. Nesse dia, porém, eis que um dos espanhóis chega sozinho carregando 3 mochilas. Estava exausto, descalço, sem camisa, suado e muito, mas muito queimado do sol.  Ele nos contou o que passou, mas, logo depois, ver a cena do seu amigo chegar com o joelho estourado, enorme de inchado, sendo carregado por uma das italianas foi emocionante. Todos aplaudiram e lágrimas escorreram de muitos olhos. No final do Caminho, já em Santiago de Compostela, uma das italianas me contou que os espanhóis eram em três amigos inseparáveis e que, juntos, há anos sonhavam fazer o Caminho. Meses antes de iniciar a caminhada, porém, um deles morreu. Os dois, então, faziam o Caminho carregando as cinzas do amigo para jogar no mar de Finisterra (cidade que fica depois de Santiago e que faz parte de um prolongamento do Caminho).

É possível não torcer para alguém nessa vida? Será que sabemos a história que essa pessoa carrega?

As últimas palavras: magia, fé e espiritualidade. Sim, a gente reza muito durante o Caminho. Ao menos eu rezei. São muitos quilômetros, muitas horas dentro da gente mesmo. A cabeça não pára. As coisas vêm. Rezei, pedi e mandei muita energia boa pras pessoas que fizeram e fazem parte da minha vida. Não é que no Caminho exista algo espiritual… a espiritualidade está dentro de nós e durante a caminhada nos damos conta disso. A gente acaba conversando muito com Deus (ou seja lá o nome que Ele tenha). E parece evidente que Ele está ouvindo. Estamos mais sensíveis e isso abre o nosso coração para que as coisas saiam e entrem com facilidade. São quilômetros de meditação, de introspecção, de perguntas. A leveza entra na alma como se trazida pelo vento que bate no rosto. E a dor sentida no corpo dá o toque final quando a gente descobre o prazer dessa dor… Sim, a dor que sentimos pelo Caminho é prazerosa. A magia (ou aquilo que assim chamei) é outra coisa que mexe com a gente. Todo o contexto já deixa a coisa mágica, mas basta você pensar em algo e… PLIM… acontece. Não que seja qualquer coisa, porque no Caminho, ao menos eu, não pensei em ficar rica, por exemplo. Você se pergunta em voz alta ou baixa: “Onde estará aquela pessoa que não vejo há dois dias?”. PLIM. Ela está bem na sua frente. “Acho que tal coisa não me acontece”. PLIM. Tal coisa acaba de te acontecer. Às vezes chega a dar medo do que falamos ou pensamos. Quando me dei conta dessa “magia”, aproveitei para mandar a todas as pessoas muitas coisas boas. Muitas energias boas.

Reflexao

Do mais, não terminei o Caminho com uma resposta se quer. Apenas milhares de perguntas, como as que coloquei aqui. Ainda estou “presa” ao Caminho… não consigo voltar a real-idade. Minha vontade é sair pelo mundo caminhando com minha casa nas costas e, de novo, viver tudo aquilo que vivi e da forma que vivi.

O Caminho também é uma fuga de objetivos de vida e isso ficou bem claro pra mim.

Qual é o seu objetivo na vida?

Se você não sabe responder essa pergunta, faça o Caminho. Porque ali existe um grande objetivo: superar os cerca de 800 km e conseguir chegar a Santiago de Compostela. E se você chega, você é um vencedor, as pessoas te parabenizam, e você conquistou algo como: um diploma de universidade, um bom emprego, um carro, a casa própria… Nos cobramos grandes realizações e às vezes não ganhamos aplausos por coisas simples que nos fazem feliz. Fico pensando a respeito das pessoas que fizeram o Caminho comigo… O que fará agora o aposentado que estava perdido por não ter mais que trabalhar na mesma empresa onde passou décadas indo? O que fará Maria Antonia que não tinha mais pressa na vida e nem dia para voltar? O que fará o desempregado que, após a notícia, foi fazer o Caminho? O que fará o menino de 17 anos que herdou, do pai que morreu, uma franquia para tocar? E os meninos espanhóis que levavam as cinzas do amigo? O que eu farei agora?

Até a metade do Caminho eu não sabia responder a famosa pergunta que todos te fazem: “Por que você está fazendo o Caminho”? Um dia descobri… Fiz o Caminho por todas as pessoas que não podem fazê-lo seja lá por qual motivo for. E como dizem os peregrinos pelo caminho: ¡BUEN CAMINO!

Esse texto foi escrito no final de maio de 2012, quando terminei o Caminho de Santiago, para a minha prima que trilha há anos um caminho muito difícil. Depois foi estendido a meus pais, aos meus grandes amigos, e à Eliane Barros que o fez junto comigo. Hoje o dedico aos amigos peregrinos que caminharam, riram e choraram nesses 28 dias ao meu lado. Gratidão.  

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